13 de agosto de 2006
Era uma vez...
Um lindo fim de tarde de julho... saímos eu e meu irmão com o propósito de buscarmos um dogue alemão arlequim. Tínhamos essa fascinação por essa raça, ainda mais com um desenho tão lindo no corpo. Fomos para Cascadura, enfrentamos engarrafamentos e chegamos já à noite.
Fomos apresentados à recente ninhada. Havia pretos... cinzas... e... arlequins! Meu irmão ficou conversando com a dona da casa enquanto eu observava os bebês de 25 dias e pensava... "qual será o meu amigo?" Nessa hora, Mathias se aproximou de mim e falou para eu ficar a vontade e escolher o macho da ninhada... Senti que ele não estava querendo se envolver muito, então fiquei responsável de escolher o filhote.
Olhei, olhei e um chamou a minha atenção. Ele era o diferente da turma, estava afastado dos demais e olhando para a parede. Sabia que filhotes assim não são recomendados. Mas pensei: "ele se parece comigo." Ele era branco com manchas pretas bem desenhadas e uma cinza, o que o fazia inesquecível.
A moça já tinha nos mostrado os machos e nos dado os nomes temporários de cada um. O nome dele era fácil de lembrar: Ronaldinho. Falei: " É aquele! O Ronaldinho! Que está olhando para a parede! "
Ela então me deu aquele serzinho de apenas 25 dias. E uma fraldinha para aquecê-lo. Com cheirinho de leite ninho. Ele era encantador... Tadinho... que nome feinho tinham dado pra ele, mas engraçado ao mesmo tempo.Vim o tempo todo com ele no peito e assim seria por dias... e dias...
Pra ser sincera, cheguei a esquecer do fila filhote que estava na minha casa. O dogue era tão bebezinho, tão carente e frágil. Não podia colocá-lo no chão que ele já começava a chorar bem fininho.
Fomos escolher o nome e para isso peguei meu livro do Marcel Proust. Vi todos os autores da coleção, mas... deu um estalo! PROUST! Esse seria o seu nome! Tudo a ver... O fila se chamava Nietzsche... e era alguns dias mais velho. Eles não se davam muito bem, Proust sempre era agredido e eu sempre o defendia o colocando no meu colo. Eu era uma mãezona.
Chegou o dia de nos separarmos, ele já estava na idade de ir para casa. Já estava vacinado. Já podia andar na rua.Que falta daquele cheirinho de leite ninho... daquele serzinho no meu peito ou na cama, dormindo junto de mim embaixo do cobertor. Sempre nos demos muito bem, mas ele começou a ficar muito nervoso com o fila. Logo o Nietzsche morreu, com apenas 4 meses e Proust ficou sozinho. Um tempo depois, compramos o boxer mini " toy " Burt e isso deixou o Proust mais nervoso. Começamos a nos desentender mas mesmo assim, ainda o amava muito. Brigávamos e fazíamos as pazes.
Depois de um tempo compramos outro fila, Laurent, que seria seu companheiro de anos. Inseparáveis. Amigos e inimigos. Unidos e não.
Quando Burt morreu, Proust voltou a ser o que era: carinhoso comigo. Perdi meu querido boxer, mas reconquistei meu filho e amigo. Olhar triste, boca de 'babaloo', dentes finos, patas longas e um andar galopante. Meu cavalinho. Meu bebê. Meu filhote. Horas, horas, horas de cafuné na orelhona que não cortamos. Olhar triste que me acompanhava... cheirinho eterno de filhote, mesmo com 9 anos. Um gentleman, um senhor, um francês fino... A frieza de alemão escondida num olhar bom. Não teve uma vida fácil, mas sempre superou os seus problemas.
Lembro-me da primeira vez que o Gustavo o viu: '' Olá David Bowie! '' Tudo porque, elegantemente, ele tinha um olho azul e outro castanho. O azul possuía uma moldura preta de pirata, que o realçava ainda mais.
Proust. Canceriano. Bobo... acreditava em tudo que via e ouvia. Tão atrapalhado, desengonçado, estabanado... tropeçava nas próprias patas longas de modelo. Nem latir sabia... Achava que pra latir tinha que saltitar... Lerdo... levava horas até tomar atitude. Medroso... "O que eram aquelas luzes no dia 31 de dezembro?", ele devia pensar. Então perguntava, latindo medrosamente para o céu.
No seu aniversário desse ano dei o presente que ele mais gostava depois do pão, é claro. Patê!
Não sei o que estou fazendo aqui...
Mas sei que estou ouvindo Five Years do David Bowie.
E que nem chorar direito eu sei. Estou evitando pensar nele. A dor é forte e diferente da que eu sinto pelo Felipe. Sim, a saudade dele ainda dói muito.
Proust sempre será um cão de ouro. Nunca me esquecerei dos seus longos banhos. Como amava água! Como amava banho! Como amava sol! Como o amo!
Sabe, as coisas realmente são muito estranhas. Nesse ano, dei o último presente, tirei abraçada a ele a última foto. Pelo menos, Felipe o está acompanhado agora e os irmãos poderão finalmente se conhecer. Já melhorei do pensamento de que estou passando por tanto sofrimento em menos de 2 meses porque não quis mais ser veterinária. Sei que posso fazer outras coisas pra alegira das pessoas, como tirar fotos... Mas, pensar que não o verei nunca mais, que não farei cafuné na sua orelhona nunca mais, que não farei mais cosquinhas na cabeça...
Por quê? Estou com tanto medo. Ver meus pais envelhecerem, meus animais envelhecerem. A graça está acabando... a vida está mudando muito. Não sei se me acostumarei a uma vida sem Felipe enrugado e Proust cavalinho. Chega de dor, por favor. Estou cansada. Minha cabeça dói. E essa dor nunca cessa.
Chega!
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